Marie Kondo e a realidade brasileira: entenda por que há quem acredita que as duas coisas não combinam | Sistema Costa Norte de Comunicação
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Marie Kondo e a realidade brasileira: entenda por que há quem acredita que as duas coisas não combinam

Brasileiros não apresentam comportamento acumulador como países europeus

27 de fevereiro de 2020 Última atualização: 18:28
Por Henrique Gear SEO

Se você é daqueles que acham um tormento arrumar o seu guarda-roupa, o nome de Marie Kondo não deve ser estranho. Empresária e especialista em organização pessoal, a japonesa se tornou famosa ao escrever quatro livros e produzir uma série para a Netflix com dicas para manter a casa arrumada e não acumular coisas sem uso.

 

Se é verdade que o ambiente impacta a nossa saúde mental, a partir da quantidade e do modo como os objetos estão organizados, é preciso ponderar se as dicas de Marie Kondo e outros gurus da “moda da arrumação” valem para todo mundo. No que se refere ao Brasil, muitos afirmam que os mantras da empresária japonesa não fazem tanto sentido.

 

Minimalismo e realidades distintas

 

Cada vez mais discutida no mundo consumista contemporâneo, a filosofia do minimalismo defende a desacumulação de coisas e uma avaliação constante do uso que fazemos de cada objeto. Assim, arrumar as coisas com regularidade é um processo fundamental para rever o que guardamos em casa e no ambiente de trabalho.

 

De acordo com Marie Kondo, ao concluirmos que não usamos mais um bem material e que ele não “traz alegria”, devemos agradecer ao objeto pelo serviço prestado e reciclá-lo, doá-lo ou jogá-lo fora.

 

Contudo, é essencial analisar a realidade e o contexto de cada país, a fim de verificar se o minimalismo faz sentido. O consumismo é mais exacerbado em países do Hemisfério Norte, como os Estados Unidos, onde poucos meses são precisos para se comprar bens de maior custo como celulares, computadores e até carros.

 

A facilidade de compra fomenta o consumo e a acumulação de objetos. Já no Brasil, a tradição é de aproveitar os objetos por mais tempo e consertá-los quando preciso, especialmente quando se trata de bens mais caros.

 

Ver as taxas socioeconômicas de um país é importante antes de prescrever filosofias de arrumação e desacumulação, como faz Marie Kondo. Em 2019, o Japão apresentou uma taxa de desemprego de 2,4% — a menor dos últimos 26 anos — e uma proporção de 163 vagas de emprego para cada 100 pessoas que buscavam trabalho.

 

Já o Brasil tem hoje cerca de 12% de sua população desempregada e um mercado de trabalho cada vez mais marcado por relações informais, em que predomina a precarização e remunerações menores. Se no Japão há melhores condições materiais para acumular coisas, no Brasil, esse processo não é necessariamente verdadeiro.

 

A relação entre o ambiente e nosso estado mental


Pessoas entrevistadas por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia disseram que tinham maiores chances de se sentirem deprimidos quando viam a casa bagunçada, com um amontoado de coisas desorganizadas.

 

Um ambiente bagunçado mostra uma falta de organização, ao mesmo tempo em que estimula a procrastinação e diminui o nosso engajamento com as atividades da vida cotidiana. O acúmulo de objetos e a desorganização material refletem uma bagunça mental que provoca baixa motivação e capacidade de concretizar planos.

 

Problemas da organização excessiva

Contudo, estabelecer uma relação pragmática com a organização da casa pode ter efeitos negativos, especialmente quando a mantemos assim devido à exigência de outras pessoas. Se manter a casa ou o ambiente de trabalho impecável se baseia em agradar ou impressionar alguém, pode ser questão de tempo até nos sentirmos sobrecarregados ou pressionados a seguir um padrão.

 

Ambientes em que não existe flexibilidade pode indicar pessoas com alto grau de ansiedade, angústia e necessidade de controle. Outro efeito desse pragmatismo é uma difícil quebra de monotonia, o que é uma barreira para a criatividade e a inovação.

 

O modo como nos relacionamos com nossos pertences e nossa casa mostra um pouco de nossa personalidade e do modo como vivemos. Porém, são os bens materiais que devem nos servir. Nossa casa é o espaço de descanso e recarga de energia após um dia de trabalho e/ou estudos. Por isso, em vez de ser um museu impecável, ela deve, primordialmente, oferecer conforto, e não preocupação ou angústia.

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